VPPB: o que é, como reconhecer e como tratar a vertigem posicional

VPPB: o que é, como reconhecer e como tratar a vertigem posicional

Você deita na cama e o mundo parece girar. Ou vira a cabeça de manhã para pegar o celular e sente uma tontura intensa que dura alguns segundos e some. Ou inclina a cabeça para trás para olhar uma prateleira alta e quase perde o equilíbrio.

Se você se reconhece nesses episódios — vertigem breve, intensa, desencadeada por movimentos específicos da cabeça — existe uma chance muito alta de que a causa seja o VPPB: vertigem posicional paroxística benigna.

O VPPB é a causa mais comum de vertigem no mundo. Tem diagnóstico específico, feito no consultório, sem exames de imagem na maioria dos casos. E tem tratamento eficaz — uma manobra manual que, quando bem executada, resolve o problema com alta taxa de sucesso. Apesar disso, muitos pacientes passam meses com o diagnóstico errado de “labirintite” ou sem diagnóstico algum.

Este artigo explica o que é o VPPB, como ele funciona, como é diagnosticado e o que esperar do tratamento.


O que é o VPPB?

VPPB é a sigla para vertigem posicional paroxística benigna. Cada palavra do nome descreve uma característica clínica:

  • Vertigem — não é qualquer tontura, é a sensação de rotação do ambiente
  • Posicional — é desencadeada por posições ou movimentos específicos da cabeça
  • Paroxística — aparece de forma súbita, em episódios
  • Benigna — não representa risco neurológico e não causa dano permanente

O mecanismo é mecânico: cristais de carbonato de cálcio que existem normalmente no labirinto se deslocam para um lugar onde não deveriam estar — e passam a gerar sinais errados de movimento para o cérebro.


Anatomia do labirinto: onde tudo acontece

Diagrama comparativo do labirinto normal com otólitos no utrículo versus VPPB com otólitos deslocados no canal posterior

Para entender o VPPB, é preciso conhecer um pouco da estrutura do ouvido interno.

O labirinto é dividido em duas partes funcionais:

Labirinto membranoso (órgão otolítico): composto pelo utrículo e sáculo, detecta aceleração linear — movimentos para frente, para trás, para cima e para baixo. Nessas estruturas vivem os otólitos (ou otocônias) — pequenos cristais de carbonato de cálcio com aproximadamente 1 a 3 micrômetros de diâmetro, que ficam presos numa membrana gelatinosa.

Canais semicirculares: três tubos em ângulos perpendiculares entre si (canal anterior, posterior e lateral), preenchidos com líquido. Detectam rotação da cabeça nos três planos do espaço. Não deveriam conter otólitos.

No VPPB, otólitos se desprendem do utrículo — por razões que muitas vezes não são identificáveis — e migram para dentro de um dos canais semicirculares, mais frequentemente o canal posterior. Ali, quando a cabeça se move, esses cristais deslocam o líquido do canal de forma anormal, estimulando os sensores de rotação de maneira equivocada. O cérebro recebe um sinal de “estou girando” que não corresponde ao movimento real. O resultado é a vertigem.


Como o VPPB se manifesta: o que o paciente sente

Infográfico com as cinco características clínicas do VPPB: duração, tipo de tontura, gatilho, sintomas associados e intervalo entre episódios

O episódio de VPPB tem um padrão bastante reconhecível quando você sabe o que procurar:

A vertigem começa alguns segundos após o movimento que a desencadeia — não instantaneamente. Isso acontece porque os cristais precisam de um momento para se deslocar dentro do canal e começar a estimular os sensores. Dura em geral entre 10 e 60 segundos e some por conta própria quando a cabeça se estabiliza. Pode vir acompanhada de náusea. Retorna quando o mesmo movimento é repetido.

Entre os episódios, o paciente se sente completamente normal. Não há tontura residual, não há zumbido, não há perda auditiva — ao contrário de outras condições vestibulares como a neurite ou a doença de Ménière.

Os movimentos que mais frequentemente desencadeiam o VPPB:

  • Virar na cama (especialmente para o lado afetado)
  • Deitar ou levantar da cama
  • Inclinar a cabeça para trás para olhar para cima (pegar algo numa prateleira alta, lavar cabelo no chuveiro)
  • Abaixar a cabeça (amarrar sapato, pegar algo no chão)

Por que o VPPB acontece?

Na maioria dos casos — especialmente em pessoas acima de 50 anos — não há causa identificável. Os otólitos se desprendem espontaneamente com o envelhecimento, pois a membrana que os mantém presos perde consistência com o tempo.

Em outros casos, o VPPB tem causa identificável:

  • Trauma craniano: mesmo impactos leves podem desprender cristais
  • Repouso prolongado: longos períodos deitado (internação, pós-cirúrgico) podem favorecer o deslocamento
  • Neurite vestibular: a inflamação do nervo vestibular frequentemente precede o VPPB por alterar o ambiente do labirinto
  • Osteoporose: a fragilidade óssea pode afetar a estrutura dos otólitos
  • Idiopático: sem causa identificável — a maioria dos casos

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico do VPPB é clínico — feito no consultório, sem necessidade de ressonância magnética, tomografia ou videonistagmografia na maioria dos casos. O médico utiliza manobras de posicionamento para reproduzir a vertigem e observar o padrão de nistagmo (movimento involuntário dos olhos) que se segue.

Manobra de Dix-Hallpike

Diagrama em três etapas da manobra de Dix-Hallpike: posição inicial, deitamento com cabeça rodada e observação do nistagmo pelo médico

A manobra de Dix-Hallpike é o principal teste diagnóstico para o VPPB de canal posterior — o tipo mais comum. O paciente começa sentado na maca, com a cabeça virada 45° para o lado a ser testado. Em seguida, é deitado rapidamente, com a cabeça mantendo a rotação e ficando levemente abaixo do nível da maca (extensão cervical suave).

Se houver VPPB no canal posterior desse lado, após uma latência de 5 a 10 segundos aparece uma vertigem intensa e um nistagmo característico — movimento rotatório dos olhos numa direção específica — que o médico observa diretamente ou com óculos de Frenzel (óculos que amplificam e impedem a fixação do olhar, facilitando a observação do nistagmo).

O padrão do nistagmo informa ao médico não apenas que o VPPB está presente, mas em qual canal o cristal está — informação essencial para escolher a manobra de tratamento correta.


Tratamento: a manobra de reposicionamento de Epley

Diagrama em cinco etapas da manobra de Epley mostrando a posição do corpo e o deslocamento do cristal no canal semicircular em cada passo do tratamento

A manobra de Epley é o tratamento de escolha para o VPPB de canal posterior. Consiste em uma sequência de movimentos guiados pelo médico que conduzem o cristal ao longo do canal semicircular até o utrículo, onde ele pode ser reabsorvido sem causar sintomas.

Os 5 passos:

  1. Paciente sentado, cabeça virada 45° para o lado afetado (mesma posição inicial do Dix-Hallpike)
  2. Deitamento rápido com a cabeça mantendo a rotação e levemente estendida — a vertigem aparece nesse momento
  3. Rotação da cabeça 90° para o lado oposto, ainda deitado — o cristal avança pelo canal
  4. Rolamento do corpo para o lado oposto, com o nariz apontando para o chão — o cristal chega à saída do canal
  5. Retorno à posição sentada com a cabeça levemente inclinada para frente — o cristal entra no utrículo

Mantemos cada posição por 30 a 60 segundos, ou até o nistagmo cessar. O médico guia cada movimento e observa os olhos em cada etapa.

Taxa de sucesso: estudos mostram resolução completa em aproximadamente 80% dos casos após uma única manobra, e acima de 90% após duas ou três repetições.


VPPB volta depois do tratamento?

Sim — e isso é importante o paciente saber. A taxa de recorrência do VPPB em um ano é de aproximadamente 15 a 30%. Isso não significa que o tratamento falhou, e sim que os cristais podem se desprender novamente.

Gráfico de barras mostrando a taxa de recorrência do VPPB ao longo do tempo: aproximadamente 20% em 1 ano e 50% em 5 anos>

Quando o VPPB recorre, o tratamento é o mesmo — a manobra de reposicionamento. Pacientes com recorrências frequentes podem se beneficiar de reabilitação vestibular específica, que reduz a probabilidade de novos episódios ao fortalecer o sistema de compensação do equilíbrio.


Tabela comparativa: VPPB versus outras causas de vertigem

Tabela comparativa entre VPPB, neurite vestibular, doença de Ménière e enxaqueca vestibular: duração, gatilho, zumbido, perda auditiva, intervalo entre episódios e tratamento

 


Perguntas frequentes

O VPPB passa sozinho? Pode se resolver espontaneamente em semanas a meses. Mas a resolução com manobra de reposicionamento é mais rápida — muitos pacientes saem da consulta sem tontura ou com tontura muito reduzida. Aguardar resolução espontânea significa continuar com as limitações por mais tempo sem necessidade.

Preciso tomar medicamento para VPPB? Em geral, não. Medicamentos antivertiginosos não tratam a causa do VPPB — apenas reduzem a náusea temporariamente. O tratamento efetivo é a manobra de reposicionamento.

A manobra de Epley pode ser feita em casa? Versões adaptadas para uso doméstico existem (como a manobra de Epley modificada de Brandt-Daroff), mas pressupõem diagnóstico correto já confirmado pelo médico, inclusive a identificação do canal afetado. Sem esse diagnóstico, a manobra pode não resolver e, em alguns tipos de VPPB (canal horizontal), pode ser contraproducente. O ponto de partida correto é sempre a avaliação médica.

Quanto tempo leva para melhorar com a manobra? Muitos pacientes têm resolução imediata ou nas 24 horas seguintes à manobra. Em alguns casos, pode ser necessária uma segunda sessão. Em raros casos de VPPB de canal horizontal ou de difícil repositionamento, pode exigir mais sessões.

Qual médico trata VPPB? O otoneurologista — otorrinolaringologista especializado em tontura e distúrbios do equilíbrio — é o especialista indicado. É o profissional treinado para fazer as manobras diagnósticas e de tratamento com segurança e precisão.


Conclusão

O VPPB é a causa mais comum de vertigem e, ao mesmo tempo, uma das mais subdiagnosticadas. Fazemos o diagnóstico no consultório em minutos, com manobras específicas. O tratamento — a manobra de Epley — tem alta taxa de sucesso e não exige medicamentos nem exames de imagem na maioria dos casos.

Se você tem vertigem breve desencadeada por movimentos da cabeça, especialmente ao virar na cama ou ao se levantar, vale investigar. Não é necessário conviver com essa limitação.

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Escrito por Dr. Douglas Ribeiro

Otorrinolaringologista. com foco no tratamento da tontura e zumbido
CRM-SP 163.108 / RQE 67.472

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