Doença de Ménière: sintomas, diagnóstico e opções de tratamento

Doença de Ménière: sintomas, diagnóstico e tratamento

Vertigem intensa que dura horas. Zumbido que aparece ou piora alguns minutos antes da crise. Sensação de ouvido cheio, como se estivesse tampado. Perda auditiva que flutua — piora nas crises e às vezes melhora depois.

Esse conjunto de sintomas, quando ocorrem juntos de forma recorrente, tem um nome: doença de Ménière. É uma condição do ouvido interno menos comum que o VPPB ou a neurite vestibular, mas com impacto significativo na qualidade de vida de quem a tem — especialmente pela imprevisibilidade das crises e pelo risco progressivo de perda auditiva.

Entender a doença de Ménière é fundamental tanto para quem suspeita ter a condição quanto para quem já recebeu esse diagnóstico e quer saber o que esperar.


O mecanismo: o que acontece dentro do labirinto

A doença de Ménière é causada pelo hidrops endolinfático — um acúmulo excessivo de endolinfa, o líquido que preenche os ductos membranosos do labirinto.

O labirinto tem dois compartimentos de líquido: a endolinfa (dentro dos ductos membranosos) e a perilinfa (ao redor). Em condições normais, a produção e a reabsorção de endolinfa são equilibradas. Na doença de Ménière, esse equilíbrio é rompido — a endolinfa se acumula, distende as membranas e aumenta a pressão dentro do labirinto.

Quando a pressão ultrapassa um limiar, as membranas podem se romper momentaneamente, misturando os dois líquidos. Essa mistura altera o potencial elétrico do labirinto de forma abrupta — e o resultado é a crise de Ménière.

A causa do hidrops endolinfático ainda não é completamente compreendida. Fatores como predisposição genética, alterações imunológicas, variações na pressão do líquor e fatores dietéticos (principalmente o sódio) são investigados como possíveis contribuintes.


A tétrade de sintomas

Diagrama circular mostrando a tétrade da doença de Ménière: vertigem episódica, perda auditiva flutuante, zumbido e plenitude auricular, todos centrados no ouvido afetado

A doença de Ménière é definida clinicamente por quatro sintomas que aparecem em conjunto — a chamada tétrade:

1. Vertigem episódica: Crises de vertigem rotatória intensa, com duração de 20 minutos a 12 horas. São espontâneas — não têm gatilho postural como o VPPB — e frequentemente vêm acompanhadas de náusea e vômito. Entre as crises, o paciente pode se sentir completamente normal.

2. Perda auditiva flutuante: Redução da audição que piora durante as crises e pode melhorar nos períodos intercrise — especialmente nos estágios iniciais da doença. Afeta preferencialmente as frequências graves (baixas). Com o tempo, a perda tende a se tornar permanente.

3. Zumbido: Barulho no ouvido — pode ser grave (ronco), agudo (apito) ou variado. Frequentemente piora antes e durante as crises. Em muitos pacientes, é o primeiro sintoma a aparecer e serve como sinal de alerta de crise iminente.

4. Plenitude auricular (aural fullness): Sensação de ouvido cheio, tampado ou com pressão. Muitos pacientes descrevem como “ouvido abafado” no lado afetado, especialmente antes ou durante as crises.


Como é uma crise de Ménière?

Linha do tempo mostrando as cinco fases de uma crise de Ménière: pródromo, início, pico (20 min a 12h), resolução e pós-crise

Uma crise típica de Ménière segue uma sequência relativamente previsível — embora a intensidade e a duração variem entre pacientes e entre crises do mesmo paciente.

Pródromo (minutos a horas antes): Muitos pacientes aprendem a reconhecer os sinais que precedem uma crise — piora do zumbido, aumento da sensação de ouvido cheio, às vezes sensação de “pressão” no ouvido. Esse pródromo, quando presente, pode ser usado para antecipar a crise e buscar um lugar seguro.

Crise: Instalação rápida de vertigem rotatória intensa, com náusea, vômito e prostração completa. O paciente geralmente precisa deitar. Duração entre 20 minutos e 12 horas.

Pós-crise: Após a resolução da vertigem aguda, o paciente frequentemente fica exausto, com desequilíbrio residual por horas e, às vezes, com piora transitória da audição.


Diagnóstico: os critérios formais

Diagrama com os três critérios diagnósticos para Ménière definitivo segundo a Sociedade Bárány 2015: episódios de vertigem, perda auditiva documentada e sintomas auditivos flutuantes

O diagnóstico da doença de Ménière é clínico e auditivo — não existe um exame único que confirme a doença de forma definitiva. Os critérios diagnósticos internacionais mais usados são os da Sociedade Bárány, publicados em 2015.

Para o diagnóstico de Ménière definitivo, são necessários:

  1. Pelo menos 2 episódios de vertigem espontânea com duração entre 20 minutos e 12 horas
  2. Perda auditiva neurossensorial documentada por audiometria no ouvido afetado, predominando nas frequências baixas e médias
  3. Sintomas auditivos flutuantes (zumbido e/ou plenitude auricular) no mesmo ouvido

A audiometria é o exame central no diagnóstico — além de confirmar a perda auditiva, serve de linha de base para acompanhar a progressão da doença.


Ménière versus outras condições: como diferenciar

Tabela comparando doença de Ménière, VPPB, neurite vestibular e enxaqueca vestibular em seis critérios clínicos"

A combinação de vertigem + perda auditiva + zumbido é o que distingue a doença de Ménière das demais condições vestibulares. Nenhuma das outras causas comuns de vertigem tem os três juntos de forma característica.


Tratamento: o que está disponível

Pirâmide de escalonamento terapêutico na doença de Ménière: da base (estilo de vida) ao topo (cirurgia), com quatro níveis progressivos

O tratamento da doença de Ménière é escalonado — começa pelas medidas mais simples e avança para intervenções mais complexas conforme a resposta do paciente.

Primeiro nível — Medidas de estilo de vida: A dieta com baixo teor de sódio (geralmente abaixo de 2g por dia) é frequentemente a primeira recomendação. O sódio influencia o equilíbrio hídrico do organismo e pode impactar a produção de endolinfa. Redução do estresse, boa hidratação e evitar cafeína e álcool em excesso também fazem parte das orientações.

Segundo nível — Tratamento medicamentoso: Diuréticos são frequentemente prescritos para reduzir a pressão endolinfática. A betaistina é amplamente utilizada, embora as evidências sobre sua eficácia ainda sejam debatidas na literatura científica. O manejo das crises agudas inclui antieméticos e, em alguns casos, sedativos vestibulares por curto período.

Terceiro nível — Procedimentos minimamente invasivos: Para casos refratários ao tratamento clínico, procedimentos intratimpânicos (injeção de medicamento através do tímpano) são opções. A injeção de corticoide intratimpânico pode reduzir as crises preservando a audição. A gentamicina intratimpânica é mais eficaz para o controle da vertigem, mas carrega risco de perda auditiva no ouvido tratado.

Quarto nível — Cirurgia: Reservada para casos selecionados refratários a todas as opções anteriores. As opções incluem a cirurgia do saco endolinfático e, em casos extremos, a labirintectomia química ou cirúrgica.


A progressão da doença: o que esperar a longo prazo

Gráfico mostrando a evolução da doença de Ménière ao longo de anos: as crises de vertigem tendem a diminuir com o tempo enquanto a perda auditiva progride de forma cumulativa"

A doença de Ménière tem uma evolução natural importante de entender. Com o tempo, as crises de vertigem frequentemente diminuem em frequência e intensidade — mas isso não necessariamente indica melhora da doença. Em muitos casos, a redução das crises ocorre porque o labirinto progressivamente perde função (fenômeno chamado de “burn-out” da Ménière): quando o labirinto deixa de funcionar, não há mais oscilações de pressão suficientes para gerar a vertigem aguda. O preço pago é a perda auditiva progressiva.

Por isso, o acompanhamento audiológico regular é parte essencial do manejo da doença de Ménière — não apenas o controle das crises.

Infográfico com possíveis gatilhos de crises de Ménière (sódio, cafeína, álcool, estresse) e atitudes de proteção (dieta hipossódica, hidratação, sono regular, audiometrias periódicas)


Perguntas frequentes

A doença de Ménière tem cura? Não existe cura estabelecida. O tratamento visa reduzir a frequência e intensidade das crises, preservar a audição pelo maior tempo possível e manter a qualidade de vida. Muitos pacientes conseguem bom controle com medidas de estilo de vida e tratamento médico.

A doença de Ménière afeta os dois ouvidos? Começa unilateral na maioria dos casos. Estima-se que 30 a 50% dos pacientes desenvolvam envolvimento bilateral ao longo de anos — o que tem impacto significativo sobre a audição e o equilíbrio.

A perda auditiva da Ménière é permanente? Nos estágios iniciais, a perda pode ser flutuante — piora nas crises e melhora depois. Com o tempo, tende a se tornar permanente e progressiva. O acompanhamento audiológico regular é essencial para monitorar essa progressão.

Posso trabalhar normalmente com Ménière? Depende da frequência das crises e da natureza do trabalho. Pacientes com crises bem controladas frequentemente conseguem manter suas atividades normais. Crises frequentes e imprevisíveis podem limitar atividades que exigem atenção contínua ou trabalho em altura.

Ménière e estresse têm relação? Muitos pacientes relatam piora das crises em períodos de estresse intenso. A relação não é completamente compreendida, mas o manejo do estresse é frequentemente incluído como parte do tratamento.


Conclusão

A doença de Ménière é uma condição desafiadora — pela imprevisibilidade das crises, pelo risco de perda auditiva progressiva e pelo impacto na qualidade de vida. Mas tem diagnóstico definível, tratamento escalonado e manejo que pode ser significativamente melhorado com acompanhamento especializado.

Se você tem episódios recorrentes de vertigem intensa associados a zumbido, sensação de ouvido cheio ou perda auditiva flutuante, a investigação audiológica e vestibular é o próximo passo necessário.

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Escrito por Dr. Douglas Ribeiro

Otorrinolaringologista. com foco no tratamento da tontura e zumbido
CRM-SP 163.108 / RQE 67.472

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